quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
A História de Encontros Memoráveis
Mantenho o saudável hábito de visitar sebos. No último sábado, fui ao centro da cidade. Parei num próximo da Av. Goiás com a Paranaíba. Garimpando muito, deparei-me com uma pequena jóia de capa dura, muito bem encadernada. Trata-se da obra "Primeiros Encontros - Um Livro de Encontros Memoráveis". Os autores são Nancy Caldwell Sorel e Edward Sorel. Acertou se você intuiu que se trata de marido e mulher. Ambos nascidos nos EUA.
Ela, escritora; ele, artista gráfico, responsável pelas soberbas ilustrações dos personalidades descritas. Os textos são enxutos, concisos, objetivos. Nenhum ultrapassa uma página. São pequenos recortes na vida de pessoas influentes em seus respectivos campos de atuação - cineastas, escritores, atores de cinemas, músicos, pintores, políticos, magnatas, filósofos e, até, mafiosos.
Pense numa personalidade influente dos séculos XVIII, XIX e XX. Provavelmente estará retratado, seja na prosa macia de Nancy, seja nos traços seguros de Edward. Freud, Voltaire, Lenin, Chaplin, Al Capone, Orson Wells, Hitler, Billie Holiday, Marilyn Monroe, Winston Churchill, Bertrand Russel, Victor Hugo, enfim, todos que interessam estão contemplados na obra.
A leitura é prazerosa. Do início ao fim. Uma festa para os sentidos, porque promove um perfeito casamento entre os textos (na verdade breves perfis) e as ilustrações. O leitor é fisgado pela descrição do "xaveco" que o magnata Howard Hughes lançou sobre a exuberante atriz Ingrid Bergman. O gavião não raptou a presa. Ingrid resistiu olimpicamente.
Não se pode dizer o mesmo do encontro dos escritores Edmund Wilson e Mary McCarthy. Ele, baixo e gordo, com 42 anos e ela na flor da idade, com 25. Era outubro de 1937. Depois de um convite para jantar feito por ele, a paixão se instalou. Casaram. O enlace não durou muito tempo, mas rendeu boas histórias, a exemplo de outro casal do balacobaco - F. Scott Fitzgerald e Zelda.
Voltando ao volume que comprei. A José Olympio, tradicional casa de livros fundada em 1931, fez um belo trabalho ao editar a obra. O exemplar que adquiri é uma 2a. edição de 1996, ou seja, de dezoito anos atrás. Não sei se novas edições foram lançadas. Mas bem que merecia. Acredito que está fora de catálogo da editora. Mas quem sabe você tenha tanta sorte quanto eu e consiga garimpar um exemplar perdido em algum sebo? Afinal, a esperança...
Ficha Técnica
Título: Primeiros Encontros - Um Livro de Encontros Memoráveis
Autores: Nancy Caldwell Sorel e Edward Sorel
Gênero: Humor e Celebridades
Editora: José Olympio
Páginas: 130
Ano: 1996
Orelha de Papel
Resolvi imprimir um foco mais específico para o Blog. Daí porque estou adotando uma nova identidade. E ela começa pelo nome: Orelha de Papel. O que isso significa? Vou focar no mercado editorial. O meu objetivo, como já estou fazendo há alguma tempo, é resenhar os livros que leio.
Mas não vou me limitar às resenhas. Quando achar conveniente, vou falar sobre o universo dos livros de maneira mais ampla. Por exemplo: o trabalho de edição e lançamento de livros, distribuição e, também, sobre o mercado de livros digitais (e-books).
Também não deixarei de publicar minhas crônicas, poesias e contos. Acredito que esses textos vão contribuir para arejar o blog. E, ainda, servem de estímulo para o exercício literário. Afinal, já não faz mais sentido, nos dias que correm, a existência de escritor de gaveta, escritor inédito.
Portanto, sejam muito bem-vindos ao Blog Orelha de Papel. Espero podermos compartilhar o gosto e o prazer da literatura e dos livros. Boas leituras!
Mas não vou me limitar às resenhas. Quando achar conveniente, vou falar sobre o universo dos livros de maneira mais ampla. Por exemplo: o trabalho de edição e lançamento de livros, distribuição e, também, sobre o mercado de livros digitais (e-books).
Também não deixarei de publicar minhas crônicas, poesias e contos. Acredito que esses textos vão contribuir para arejar o blog. E, ainda, servem de estímulo para o exercício literário. Afinal, já não faz mais sentido, nos dias que correm, a existência de escritor de gaveta, escritor inédito.
Portanto, sejam muito bem-vindos ao Blog Orelha de Papel. Espero podermos compartilhar o gosto e o prazer da literatura e dos livros. Boas leituras!
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Stevenson: Nem Médico, Nem Monstro
Li de forma despretenciosa "Stevenson Sob as Palmeiras", do escritor argentino Alberto Manguel. A obra narra as vivências do escritor (romancista, ensaísta e poeta) escocês, Robert Louis Stevenson, em Samoa, ilha onde fixou residência, depois de dar a volta ao mundo. Nesses confins idílicos do Pacífico Sul, isolou-se para escrever em silêncio e dar asas à sua fantástica imaginação.
Fã confesso de Stevenson, Manguel decidiu tomá-lo como personagem. O autor nos conduz calmamente ao paraíso tropical do consagrado escritor. Descreve a residência confortável do autor, o escritório arejado, o sol e o calor, a sombra dos flamboyants e a nudez das mulheres da ilha de Samoa, classificada como "pele escura, brilhante e dura como pedra vulcânica".
Tudo parece ir bem para Stevenson, que é idolatrado pelos nativos da ilha. Eles se referem ao romancista como Tusitala ou "contador de histórias". Em determinada altura, um crime abala o suposto nirvana tropical. A tensão e o mistério se instalam, bem como se agrava a doença do escritor (ele era tuberculoso). Vida e ficção se misturam. É quando afloram, também, as agudas diferenças culturais dos europeus e dos nativos.
Todo esse enredo -ambientação, história e personagens- só poderia render boa literatura. É o que faz com muita competência Alberto Manguel. O autor dignifica o gênio do seu colega escocês que nos legou clássicos do porte de "O Médico e o Monstro" e "A Ilha do Tesouro".
"Stevenson Sob as Palmeiras" é uma competente homenagem ao mestre do terror e das aventuras. E, por isso, é um convite e um incentivo para penetrar no mundo do grande estilista e contador de histórias que foi Stevenson. Para se ter ideia do seu prestígio, foi, também, admirado por mentes brilhantes como Jorge Luis Borges, Graham Greene e Italo Calvino.
Sobre o seu personagem, Manguel adverte: "Ler Stevenson é uma aventura intelectual, um encontro com uma mente clara e despretenciosamente inteligente; mas, acima de tudo, é um ato de amizade, pois quem abre um de seus livros (a menos que tenha o espírito insensível e a cabeça embotada) ganha um amigo generoso e honesto para o resto da vida".
Ficha Técnica
Título: Stevenson Sob as Palmeiras
Autor: Alberto Manguel
Gênero: Ficção Policial e de Mistério
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
Ano: 2000
domingo, 26 de janeiro de 2014
Uma Janela para o Universo Pessoal
O autor do consagrado best-seller "Uma Breve História do Tempo", Stephen Hawking, faz algo que parecia improvável: lançou há pouco "Minha Breve História". Nesta nova obra, em tom autobiográfico, narra a sua trajetória pessoal, desde a infância, na Londres do pós-guerra, até obter a consagração e o reconhecimento da comunidade científica internacional.
O cientista mais famoso da atualidade, que conquistou leitores no mundo todo ao explicar os mistérios do universo, volta-se para o seu universo pessoal. Com muita desenvoltura, fala da descoberta da sua doença (esclerose lateral amiotrófica), aos 21 anos, até as desavenças conjugais - separou da sua primeira mulher, com quem teve três filhos. E, também, relata a experiência do seu segundo casamento, que também foi desfeito.
Mas não pense o leitor que o livro tem alguma coisa parecida com as revistas "Contigo" e "Caras". E não se trata, muito menos, de um livro de auto-ajuda. Embora, deva-se reconhecer, que em alguns momentos o relato possa servir de inspiração motivacional para quem está ingressando no restrito mundo da física e da cosmologia.
Concordo plenamente com o que diz a orelha do livro. Ao nos aventurarmos pelo universo de Howking nos deparamos com um autor: "perspicaz, íntimo e inteligente". A obra, acrescenta o texto da orelha, "abre uma janela para o universo pessoal de Howking". Nesse aspecto, temos que admitir: somos todos bisbilhoteiros. Afinal, trata-se da vida extraordinária de um dos mais brilhantes cosmologistas de nosso tempo. E isso não tem nada a ver com Big Brother, que, convenhamos, é um amontoado de nulidades.
O leitor não deve esperar por relatos melodramáticos, tão ao gosto das novelas mexicanas. O autor, ao se despir (no bom sentido) para o público, tem o cuidado de usar da simplicidade e do humor para descrever a sua evolução pessoal e intelectual. Somos convidados para uma conversa na sua sala de visitas. Ele nos conta que já apostou com um colega sobre a existência de um buraco negro.
Interessante que Howking dá a entender que, realmente, gosta de apostas e, também, é curioso com as apostas alheias. Com muita sagacidade, revela o seguinte caso: " Quando eu tinha doze anos, um dos meus amigos apostou um saco de doces com outro que eu nunca seria ninguém. Não sei se tal aposta foi paga algum dia, e se foi, quem a ganhou".
Em outro momento, de novo o autor nos surpreende: "Sempre fui um aluno mediano", para acrescentar em seguida que a sua turma era de pessoas brilhantes. Outra revelação: "Meus trabalhos escolares não tinham capricho e minha caligrafia era o desespero dos professores". Ou seja, por trás do gênio, habita um simples mortal.
Nós, simples mortais, que sempre buscamos inspiração nos mitos e nos gênios, podemos nos espelhar nessa frase simples e sincera: "Quando você se depara com a possibilidade de uma morte precoce, percebe que a vida vale a pena e que há muitas coisas que você deseja fazer". Isso, por si só, vale a leitura do livro despretencioso do Einstein moderno. E você, ainda vai reclamar de dificuldades e de falta de tempo?
Ficha Técnica
Título: Minha Breve História
Autor: Stephen Hawking
Gênero: Autobiografia
Editora: Intrínsica
Páginas: 144
Ano: 2013
A Literatura a Serviço da Verdade
A literatura deve ter compromisso com a realidade? Deve influir nos rumos dos acontecimentos históricos? Acredito que foi a resposta a estas dúvidas que estimularam os escritores Carlos Heitor Cony e Anna Lee a escreverem "O Beijo da Morte". A obra é um mistura de reportagem e ficção. Mexeu num vespeiro político. Diria mais: num trauma da história recente do Brasil.
Escrito em 2003, o livro foi peça importante para reabrir as investigações sobre as mortes dos líderes da chamada "Frente Ampla", que aglutinou no mesmo polo político Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda. Eles se uniram para combater a ditadura militar implantada no país em 1964 (este ano completa cinco décadas).
Pois bem, passados pouco mais de 10 anos desde a publicação, os resultados perseguidos pelos autores começaram a dar frutos concretos. Os casos foram reabertos. No ano passado, por exemplo, os restos mortais do ex-presidente João Goulart, que estavam na Argentina, foram trasladados para o Brasil.
Jango, como o ex-presidente era conhecido, teve os seus direitos políticos restituídos e foi recebido no Palácio do Planalto com honras de chefe de Estado. Fez-se um reparo na história, pois o seu governo constitucional foi deposto por uma quartelada que lançou o país no obscurantismo por mais de duas décadas.
Pairava no ar a suspeita de que Jango foi vítima de envenenamento quando vivia na Argentina, na cidade de Mercedes. Na época de sua morte (6 de dezembro de 1976), as autoridades constituídas não se deram ao trabalho sequer de fazer a autópsia do corpo. Foi enterrado às pressas na Argentina. Não foi permitido que regressasse ao Brasil, ainda que morto. Temia-se que o velório se tornasse um ato político.
As mortes de Jango, JK e Lacerda ocorreram num curto período de dez meses. As circunstâncias que as envolveram foram, no mínimo, suspeitas. JK foi vítima de um acidente automobilístico, Jango de ataque cardíaco e Lacerda morreu sem diagnóstico preciso. Suspeitou-se de septicemia.
Soube-se, posteriormente, que as ditaduras militares da América do Sul (especialmente, do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile) atuaram em estreita colaboração. Casos vieram à tona de queima de arquivo e limpeza de terreno para evitar o restabelecimento da democracia no Cone Sul. Inclusive, o ex-ministro de Salvador Allende, Orlando Letelier, foi morto em setembro de 1976, vítima de uma bomba, em Washington (EUA).
Tendo esse intrincado contexto histórico como pano de fundo, Cony e Anna Lee misturamram fatos e ficção, Criaram um personagem central que é um repórter que tem como ideia fixa provar que os três líderes brasileiros foram vítimas de uma trama política da chamada "Operação Condor", como ficou conhecida a operação entre os serviços secretos da região.
Ágil, objetivo e direto, os autores construíram um thriller político. A obra é fruto de um minucioso trabalho de pesquisa, que consumiu mais de um ano. O resultado é um romance-reportagem que se lê de um só fôlego. Ao colocar o dedo nessa ferida histórica, procuraram descortinar o véu da verdade, ainda que tateando no escuro. A história agradece por esse trabalho de fôlego, argúcia e obstinação.
Ficha Técnica
Título: O Beijo da Morte
Autores: Carlos Heitor Cony e Anna Lee
Gênero: Romance-Reportagem
Editora: Objetiva
Páginas: 283
Ano: 2003
(Francisco Barros)
sábado, 25 de janeiro de 2014
Um Mergulho na Alma Portuguesa
Gosto de aventurar-me por autores desconhecidos, pelo menos, para mim. Por vezes, somos recompenados com gratas surpresas. Quando não, ao menos valeu a tentativa. Em matéria de leitura, quem não corre riscos priva-se do prazer de navegar por mares literários desconhecidos e deslumbrantes. A descoberta é estimulante.
Foi imbuído desse espírito que lancei-me à leitura de "As Horas Extraordinárias", do escritor e crítico português Luís Forjaz Trigueiros. Para ser sincero, fui estimulado pelas palavras do saudoso baiano Jorge Amado, que disse o seguinte sobre o autor: " Reiventou Portugal, a paisagem e os habitantes, numa série de admiráveis brochuras, esclareceu temas e personagens em artigos e e ensaios críticos, com aguda visão, sempre armado de compreensão e simpatia".
Outro que atestou as qualidades literárias de Luís Forjaz foi o acadêmico Antônio Carlos Villaça, para quem "Trigueiros escritor é a própria imagem do movimento...da vida". Sobre os seus contos, teceu o seguinte comentário: "...tecnicamente impecáveis, irretocáveis, nos transmitem esse amor à vida, esse interesse pelo humano, esse respeito do ser humano, cuja verdade ele busca".
Avalizado pelos dois mestres brasileiros, lancei-me à leitura das "crônicas da vida lisboeta". O nosso autor revela-se um esteta, seja ao descrever as paisagens naturais da cidade, seja, sobretudo, as desnudar os seus tipos psicológicos. E o faz utilizando uma linguaguem plástica, quase musical, digna dos grandes ficcionistas da língua portuguesa.
Mas Luís Forjaz não se limita ao lírico. Ele também sabe exercitar o humor, sutil e inteligente. O melhor exemplo é o conto "Desporto de Inverno". Um outro aspecto que chama atenção é que os seus personagens habitam uma Lisboa que se digladia entre a preservação histórica e a modernidade, esta que não respeita as tradições. Transitam numa sociedade que assiste ao processo acelerado de industrialização. Esse é o pano de fundo de praticamente todos os 10 contos do livro.
O choque do arcaico e do moderno é o fio condutor, o leitmotiv, da obra de Trigueiros. Inconscientemente, os personagens são impactados por essa dialética. Eles se movem sob a influência desse "fantasma" que os espreita e os persegue. Assim, o autor tece a sua teia com muita competência. Tanto que, no mesmo diapasão em que envolve os seus personagens, captura o leitor. Como um visgo.
Pode-se dizer que, ao nos convidar para passear pelas ruas de Lisboa e conhecer de perto a sua gente, Trigueiros nos envolve nos matizes e nos entretons da alma portuguesa. E esse movimento soa-nos como um fado que está sendo executado, não com música, mas com palavras. Até os silêncios são ouvidos. E dão asas à imaginação e te conduzem às ruas da velha Lisboa de antigamente.
Ficha Técnica
Título: As Horas Extraordinárias
Autor: Luís Forjaz Trigueiros
Gênero: Contos
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 182
Ano: 1988
(Francisco Barros)
domingo, 15 de dezembro de 2013
Claro como o Rio
Rio Claro
deslizas compassado
por entre as pedras
que saúdam teus passos.
Rio Claro
ávido de luz
vestes sorrateiro
o verão silvestre.
Rio Claro
transparente e fluido
enfeitiças o olhar
singra o poente.
Rio Claro
fluis musicalmente
sonâmbulo reflete
a lua quartocrescente.
(Francisco Barros)
Rio:Claro

Foto: Marco Monteiro
Chamo-te
pelo nome:
claro.
Derramas
tua arquitetura
líquida
sobre a face
vulcânica
das tuas
verdes
margens;
em dias
tórridos
teu corpo
volatiza-se
entre mãos
úmidas,
translúcidas,
enlaçando
o horizonte
em camadas
pulsantes,
esvaindo-se
em vapor,
luz,
sonho,
vida.
(Francisco Barros)
domingo, 27 de outubro de 2013
Gaiman: Oceano Dentro do Balde
É
certo que o escritor Neil Gaiman tem uma legião de fãs, pessoas que conhecem o
seu trabalho, especialmente, como o criador da aclamada série de quadrinhos Sandman. O talento o levou a expandir
seus horizontes artísticos. Assim, desembarcou na ficção adulta e
infantojuvenil. Recebeu diversos prêmios e suas obras foram adaptadas para
filmes, séries de TV e até óperas.
Por
tudo isso, é natural a grande expectativa que se criou em torno do seu mais
recente romance “O Oceano no Fim do Caminho” (Ed. Intrínseca, 205 Págs.). Ele
não decepcionou. Ou seja, não fugiu ao seu estilo. A história é densa. Embora o
universo retratado seja reminiscências de criança. O enredo lembra um conto
infantil gótico, estranho, assustador, sombrio.
Ao
remexer o passado, o personagem principal (um homem de meia idade) depara-se
com o “reflexo tremido na lagoa da lembrança”. É esta lagoa, que ele revisita
depois de uma ausência de 40 anos, que a sua amiga de infância chamava de “oceano”. O reencontro com o passado aviva na sua
memória imagens há muito adormecidas.
O
leitor é como que levado a ouvir o “eco dos sonhos” do narrador da história. Só
que esses “sonhos” mais se assemelham a pesadelos. Esse mundo infantil é
povoado por pássaros vorazes, com dentes afiados, que se alimentam de “lona
apodrecida”. São abutres que voam em círculos e atuam como “faxineiros da
natureza”.
Velas
bruxuleantes, aves famintas, céu cinzento, orquídeas estranhas, compõem o
cenário do romance. O autor faz referências diretas à obra “Alice no País das Maravilhas”. As
duas narrativas bebem na mesma fonte: o estranhamento do mundo, como se fosse
possível cruzar um portal e penetrar
“terras além do mundo conhecido”.
O
mundo infantil de Gaiman está longe de ser lúdico. É claustrofóbico, povoado
por monstros assustadores e dominado pela presença da morte. O seu “oceano”
cabe num balde. A misteriosa amiga do narrador (a garotinha Lettie Hempstock)
era “feita de lençóis de seda” e de uma “miríade de chamas de velas”.
Numa
certa altura do romance, o narrador, alter-ego de Gaiman, confessa que não tem
saudade da infância. Dá, perfeitamente, para entender porque, embora diga que
sente falta “da forma como eu encontrava prazer nas coisas pequenas”. Ele
poderia completar: quando era possível colocar, usando apenas a imaginação, um
oceano dentro de um balde.
Ficha Técnica
Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Gênero: Romance
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Ano: 2013
Ficha Técnica
Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Gênero: Romance
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Ano: 2013
(Francisco Barros)
Gaiman: Oceano Dentro do Balde
É
certo que o escritor Neil Gaiman tem uma legião de fãs, pessoas que conhecem o
seu trabalho, especialmente, como o criador da aclamada série de quadrinhos Sandman. O talento o levou a expandir
seus horizontes artísticos. Assim, desembarcou na ficção adulta e
infantojuvenil. Recebeu diversos prêmios e suas obras foram adaptadas para
filmes, séries de TV e até óperas.
Por
tudo isso, é natural a grande expectativa que se criou em torno do seu mais
recente romance “O Oceano no Fim do Caminho” (Ed. Intrínseca, 205 Págs.). Ele
não decepcionou. Ou seja, não fugiu ao seu estilo. A história é densa. Embora o
universo retratado seja reminiscências de criança. O enredo lembra um conto
infantil gótico, estranho, assustador, sombrio.
Ao
remexer o passado, o personagem principal (um homem de meia idade) depara-se
com o “reflexo tremido na lagoa da lembrança”. É esta lagoa, que ele revisita
depois de uma ausência de 40 anos, que a sua amiga de infância chamava de “oceano”. O reencontro com o passado aviva na sua
memória imagens há muito adormecidas.
O
leitor é como que levado a ouvir o “eco dos sonhos” do narrador da história. Só
que esses “sonhos” mais se assemelham a pesadelos. Esse mundo infantil é
povoado por pássaros vorazes, com dentes afiados, que se alimentam de “lona
apodrecida”. São abutres que voam em círculos e atuam como “faxineiros da
natureza”.
Velas
bruxuleantes, aves famintas, céu cinzento, orquídeas estranhas, compõem o
cenário do romance. O autor faz referências diretas à obra “Alice no País das Maravilhas”. As
duas narrativas bebem na mesma fonte: o estranhamento do mundo, como se fosse
possível cruzar um portal e penetrar
“terras além do mundo conhecido”.
O
mundo infantil de Gaiman está longe de ser lúdico. É claustrofóbico, povoado
por monstros assustadores e dominado pela presença da morte. O seu “oceano”
cabe num balde. A misteriosa amiga do narrador (a garotinha Lettie Hempstock)
era “feita de lençóis de seda” e de uma “miríade de chamas de velas”.
Numa
certa altura do romance, o narrador, alter-ego de Gaiman, confessa que não tem
saudade da infância. Dá, perfeitamente, para entender porque, embora diga que
sente falta “da forma como eu encontrava prazer nas coisas pequenas”. Ele
poderia completar: quando era possível colocar, usando apenas a imaginação, um
oceano dentro de um balde.
Ficha Técnica
Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Gênero: Romance
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Ano: 2013
Ficha Técnica
Título: O Oceano no Fim do Caminho
Autor: Neil Gaiman
Gênero: Romance
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Ano: 2013
(Francisco Barros)
Canção para Cortázar
Frases mastigadas,
compassadas,
vagueiam velozes
pelo céu da boca.
Exalam aromas,
especiarias,
no interstício
das estações.
Acariciam a seda
e a melancolia
e reverenciam
sombras e luzes.
Afogadas
em saudades
dissolvem-se
na terra porosa.
Emergem orvalhadas,
florescem efusivas,
catárticas, em métricas
proporções.
Pássaros em fogo,
dançam e voam
no devaneio
da eterna magia.
(Francisco Barros)
terça-feira, 22 de outubro de 2013
O Mitômano e a Guerra Injustificável
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| Bob Drogin |
Ficha Técnica
Título: Curveball
Autor: Bob Drogin
Gênero: Reportagem
Editora: Novo Conceito
Páginas: 272
Ano: 2008
domingo, 6 de outubro de 2013
Andaluzia
Céu andaluz
solo espesso
a bailarina cadencia
os pés no tablado
o bardo, atento, registra
o movimento.
Calcinada geografia,
madrugadas púrpuras;
O rio Guadalquivir, sonâmbulo,
flui sereno pelas montanhas
Serpenteia suas artérias
em ruminantes encostas
Pátria surreal
de noites febris.
Solo de feridas abertas
na memória trágica
Tentaram ceifar os ideiais
do teu povo mestiço
Mães velaram filhos
sob o manto das trevas
(o choro adubou, como húmus,
o triste solo enluarado)
silenciou a catedral gótica
congelou tempo e vento
até que, novamente, a luz
brilhou, as estrelas resplandeceram
e voltou a tingir de vermelho
o revigorado verão andaluz.
(Francisco Barros)
sábado, 5 de outubro de 2013
Astronauta
No céu da tua boca
centelhas e fagulhas
guiam minha língua
por uma pungente
geografia outonal
No céu da tua boca
as nuvens rubras
suspensas no espaço
drenam meu sangue
por despenhadeiros
No céu da tua boca
minha língua vagueia
tonta, ébria, cambaleia
e para assustada
na fenda do universo
No céu da tua boca
(amplidão abissal)
minha língua passeia, louca,
pelas entranhas perdidas
da estação espacial
No céu da tua boca
(sigo uma órbita volátil)
a língua revigorada, ondeia,
e me conduz, sonâmbulo,
ao infinito espaço sideral.
(Francisco Barros)
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Estrelas
Espevitadas no céu
dançam a tremeluzir
fazem tanto escarcéu
que não me deixam dormir.
(Francisco Barros)
Poeta Aprendiz
O saudoso mestre Alceu Amoroso Lima costumava citar uma anedota literária. Dizia ele que um pretenso poeta queixava-se a um poeta consagrado: "Tenho excelentes ideias, mas não consigo transpô-las para o papel". Sarcástico, o poeta observou:"Poemas não se escrevem com ideias, mas com palavras".
Esta questão me vem à lembrança a propósito do seguinte: em dadas situações, ao se escrever um poema, ele surge inicialmente como ideia. Devidamente anotada, pode virar um poema. Mas para isso tem ocorrer um intenso trabalho de burilamento. É a parte mais difícil, mais penosa.
Ideias podem surgir a todo instante. O poema não. Transformar essa ideia em poema exige muito mais que inspiração. É um sofrido trabalho de transpiração. É assim que reside a essência do fazer poético. Um poema pode ser escrito e reescrito até cem vezes. Sem nenhum exagero. Depende do rigor do poeta. Dificilmente um poema sai pronto.
Vamos a um exemplo concreto. Li um livro da poeta mineira Adélia Prado. A sua poesia tem o sabor das coisas de Minas. Tem o cheiro da terra. O gosto da sua culinária. Transpira o jeito de ser do mineiro.Desconfia do verso fácil. Em síntese: é uma delícia só. Tive a ideia de fazer um poema para homenagea-la. Assim esbocei (a ideia) o texto abaixo:
Na padaria,Adélia foi
e não trouxe pão;
em compensação,
serviu um prato
quentinho de poemas,
como se fosse
bolo de fubá,
que acabou
de sair do forno
do fogão caipira.
É claro, não me dei por satisfeito. Cortei, acrescentei, retirei, rememorei coisas que não constavam da ideia original. Reescrevi uma, várias vezes. Conservei, basicamente, a temática (ideia) central: pão, poema, poeta (Adélia). Depois de diversas burilagens cheguei a um formato que me agradou. É definitivo? Não sei. Provavelmente, não. O poema definitivo é aquele de técnica perfeita. Para se alcançar este estágio é necessário muito tempo, muito labor e muito talento.
Aprendiz de poeta, continuo me esforçando neste ofício extremamente difícil. Uma coisa asseguro: não vou desistir. Abaixo, transcrevo o resultado da minha carpintaria poética. Espero não decepcionar a minha homenageada: Adélia Prado. Como a Internet é um espaço de colaboração, estou aberto a comentários (positivos e negativos). Espero que os primeiros prevaleçam.
Pão e Poesia
Para Adélia Prado
Alimenta o corpo
Alimenta o espírito
Mãos ágeis
comprimem a massa
Mãos zelosas
esculpem palavras
Saem do forno
para serem servidos
Na bandeja
de esmalte
Na folha
de papel sulfite
São consumidos
avidamente
Pão e poesia,
ainda quentes
Uma autora,
duas obras
Poeta singular
das Minas Gerais.
(Francisco Barros)
Manoel de Barros
Manoel, poeta alquimista,
transforma palavras em ouro,
singra rios a perder de vista,
no pantanal está teu tesouro.
(Francisco Barros)
Jardim
Tenho sementes
na garganta
brilho oculto
nos olhos
espelho quebrado
no bolso
improváveis
lembranças de Vênus
afora relíquias
guardadas no porão.
Mas, de tudo,
o que mais
me orgulho
é meu jardim
secreto:
de sonho
de neblina
de afeto.
(Francisco Barros)
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Hiroshima
Um pássaro pousa
no parque em Hiroshima.
O que sabe o pássaro
sobre Hiroshima?
O que sabe o pássaro
sobre o homem?
Ele apenas voa
e canta para
saudar a vida.
Hoje, flores
derramam
perfume no céu
de Hiroshima.
O vento evita
a imobilidade
das plantas.
O mesmo vento agita
os cabelos e a memória
dos habitantes
de Hiroshima.
Um leve assobio,
sussurros nas esquinas.
À espreita,
o horror subterrâneo
caminha de mãos dadas
com teus antepassados.
Mas, hoje, os pássaros
chilreiam nos parques,
pousam nas árvores
e não sabem
da tua dor, Hiroshima.
A brisa, fria, sopra leve.
Hoje, 6 de agosto, o mundo
te olha com ternura, Hiroshima.
A mágoa, a nódoa, a chaga,
te acompanham.
Caminham,em marcha,
no teu lento compasso.
E nada se apagou.
O vento não levou.
Você, sabe. Você, sabe.
E, mais uma vez,
olha com desconfiança.
Finda o dia.
É hora da passagem - luz e treva.
Dorme, em paz, Hiroshima.
Só não peço que te esqueça.
(Francisco Barros)
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Blow Up
Lembrando Antonioni
O filme é um clássico do mestre Antonioni. Revê-lo é sempre um prazer. Trabalha duplamente a imagem: cinema e fotografia. Uma homenageia a outra. Ambas, irmãs quase siamesas, nutrem-se das imagens. O cinema não tem compromisso com o real. A fotografia tem. Mas será? É, exatamente, o que Antonioni coloca em dúvida no filme.
Onde termina a realidade e começa a fantasia? A objetividade, a verdade, a realidade podem ser apreendidas em toda a sua essência? São questões para serem ponderadas, medidas, questionadas. Antonioni conduz tudo isso sem esquematismo, tomando por base e inspiração um belo conto de Julio Cortázar. Lançado em 1966, o filme capta a efervescência dos loucos anos 60.
A estética é jovem. Pulsante. Aborda o mundo das modelos. Mas vai muito além das aparências. Da beleza das beldades que desfilam nas passarelas, que são fotografadas em estúdio. A verdade está nas ruas. O cineasta mostra o protagonista, o fotógrafo da moda Thomas (David Hemmings), com um olhar apurado.
Fugindo das situações banais dos estúdios, ele capta um beijo num parque em Londres. Daí o subtítulo do filme: Depois Daquele Beijo. O roteiro explora com muita perícia o que se esconde por trás da imagem desse beijo. Ao revelar (e ampliar) o negativo diversas situações surpreendentes começam a fazer sentido. Como não sou desmancha prazer, não dá para contar o final.
Ao rever o filme que tinha visto na década de 90, tive a ideia de fazer um poema para homenageá-lo. Esbocei um texto inicial (abaixo). Mas, como sempre, não me dou por satisfeito. Cortei, acrescentei, remendei. O resultado vou apresentar na sequência. Novamente, digo: pode (e deve) sofrer mudanças.
Enquadro
quadro a quadro
a luz, a cor,
sombra e movimento.
Objeto em zoom
Objetiva em ação
Aciono o obturador:
paisagem capturada.
A imagem derramada
no papel fotográfico
apreende o instante
do olhar flamejante.
O poema, modificado, ficou da seguinte forma:
Objetiva na mão
Enquadro
(quadro a quadro)
luz e cor
sombra e movimento.
Objeto em zoom
Olho e lente são um
Obturador em ação
Eternidade capturada.
No laboratório
a imagem derramada
no papel
apreende
na fração do segundo
o real
e a imaginação
contidos
e refletidos
no olhar
delirante
flamejante.
(Francisco Barros)
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