quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Clarice Enigma


Agora em dezembro completam-se 32 anos da morte da escritora Clarice Lispector, um dos principais nomes da literatura brasileira do século XX. De origem ucraniana, Clarice também nasceu em dezembro, no dia 10, em 1920. Chegou ao Brasil com um ano de idade. Viveu a infância e parte da adolescência em Recife. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1935.

Aos 20 anos iniciou atividade no jornalismo, embora tenha cursado Direito, função que nunca exerceu. Construiu uma sólida carreira literária. Sua obra inclui contos, crônicas e romances. Seu estilo é singular. Introspectivo. Em artigo publicado no The New York Times, em 2005, foi descrita como o equivalente de Kafka na literatura latino-americana.

Carlos Drummond de Andrade definiu em versos a sua admiração pela escritora:
- Onde estiveste de noite
Que de manhã regressais
com o ultramundo nas veias,
entre flores abissais?
– Estivemos no mais longe
que a letra pode alcançar:
lendo o livro de Clarice,
mistério e chave do ar.

Clarice tinha consciência que era um mistério para si mesma. Sendo assim, como transpor as suas zonas de sombra? Como desvelar um pouco de sua personalidade? É necessário, pois, procurar as chaves para abrir as gavetas e pinçar (ou laçar) palavras para compor seu auto-retrato.

Ela confessou certa feita que jamais escreveria uma autobriografia. Mas é fato que deixou muitas pistas para os seus biógrafos. Estas pistas, claro, estão nos seus escritos, na composição de seus personagens e, também, nas suas crônicas confessionais.

O leitor atento sempre vai encontrar em algum escrito de Clarice uma nova chave para entender os seus mistérios. A leitura de sua obra é o mapa que possibilita “reveladores vislumbres de sua densa personalidade”, como assinalou Pedro Karb Vasquez, no site oficial da escritora.

Num depoimento sobre Clarice, com quem trabalhou em duas oportunidades , no Jornal do Brasil e no Diário da Noite, o jornalista Alberto Dines assim a definiu: “Clarice era tudo menos óbvia. Ela era secreta”.

Ou seja, isso reafirma, uma vez mais, a sentença: As gavetas secretas de Clarice são os seus escritos. Ler Clarice é como penetrar num porão escuro que aos poucos vai se iluminando. Bem-vindos ao mundo secreto de Clarice.

“Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Para que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada”.
(Do conto Felicidade Clandestina)

“Pela primeira vez, ele, que era um ser votado à moderação, pela primeira vez sentiu-se atraído pelo imoderado: atração pelo extremo impossível. Numa palavra, pelo impossível. E pela primeira vez teve então amor pela paixão”.
(Do conto Amor pela Paixão)

“Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornara uma menina feliz”.
(Do conto Restos do Carnaval)

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu somava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente”.
(Do conto Perdoando Deus)

“...meu sacrifício é reduzir-me à minha vida pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado”.
(Do conto O Ovo e a Galinha)

Os textos a seguir foram extraídos do livro “Aprendendo a Viver” -Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004. Estes trechos estão no site oficial da escritora www.claricelispector.com.br

Viver e escrever
“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
“Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura”.


Amar os Outros

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”


Ideal de vida

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

Lúcida em excesso
“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém.”.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Herman Hesse: para pensar


Herman Hesse (1877-1962) foi um escritor alemão de sucesso mundial.Isso no século XX. Até os anos 70, era muito lido, especialmente entre os jovens adeptos da chamada contracultura. Os hippies, da geração paz e amor. Escreveu obras de grande importância: "O Lobo da Estepe", "O Jogo das Contas de Vidro" e "Sidarta".

Na atualidade, fala-se pouco de Hesse, o que é uma injustiça. Sua obra é perene, sobrevive aos modismos. Pacifista, difundiu a cultura Oriental no Ocidente. Foi um pensador refinado. Um grande humanista e uma das figuras luminares das letras do século XX.

Para que se conheça um pouco de sua verve, transcrevo algumas frases que revelam centelhas do seu pensamento. Vale a pena reabilitar para os nossos jovens um escritor da estatura de Hesse, vencedor do Nobel de Literatura de 1946.

Deliciem-se com algumas de suas frases:

"Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo".

***
"O homem culto é apenas mais culto; nem sempre é mais inteligente que o homem simples".

***
"A paz não é um estado primitivo paradisíaco, nem uma forma de convivência regulada pelo acordo. A paz é algo que não conhecemos, que apenas buscamos e imaginamos. A paz é um ideal".

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"Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido".

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"A sabedoria não pode ser transmitida. A sabedoria que um sábio tenta transmitir soa mais como loucura".

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"Quem é pequeno vê no maior apenas o que um pequeno é capaz de perceber".

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"Sem amor por si mesmo, o amor pelos outros também não é possível. O ódio por si mesmo é exactamente idêntico ao flagrante egoísmo e, no final, conduz ao mesmo isolamento cruel e ao mesmo desespero".

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"A alegria e o sofrimento são inseparáveis como compassos diferentes da mesma música".

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"Ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigo".


Hermann Hesse

domingo, 20 de dezembro de 2009

A sabedoria de Blake


"A maledicência revigora. O elogio relaxa".

A epígrafe que abre este texto parodia o poeta inglês William Blake. O velho e sábio Blake imprimiu a seus escritos um tom profético e místico. Usava uma linguaguem poderosa para afirmar a sua convicção na imaginação do ser humano.

Diferente de Blake, existem aqueles que se utilizam da imaginação e da má-fé (sobretudo esta última) para atingir outras pessoas. E o que é pior: escudam-se sob o manto do anonimato para desferir aleivosias. Mentem e difamam.

Embora afeito a atitudes rasteiras, revelam-se mais traiçoeiros que animal peçonhento. Este, por instinto, ataca quando provocado ou, amiúde, para se alimentar. Não se utiliza de subterfúgios.

Aqueles, muito ao contrário. Desfecham ataques fortuitos por mero prazer. Daí porque, o líquido que destilam é putrefato, fruto do seu "habitat" natural: sombrio, sórdido e sem luz.

Nenhuma surpresa quando se descobre o seu alimento cotidiano, à base da inveja, da incapacidade, da insensatez e da insídia. Uma coisa é certa: à luz do dia, não sobrevivem.

Isto posto, o mais correto é seguir a máxima de Blake, autor da seguinte pérola: "Como o ar ao pássaro, e o mar ao peixe, o desprezo ao desprezível".

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Brasília: 50 anos




Já foram deflagradas as comemorações dos 50 anos de Brasília. Muitas homenagens serão realizadas. Mas passado meio século, até hoje existem contestações sobre a mudança da capital. Haja saudosismo. Apesar disso, parece-me que foi inegável o acerto do presidente Juscelino de apostar na interiorização do Brasil.

Dentre inúmeros textos que exaltam Brasília, gostaria de reproduzir um em especial. O autor é o cronista e poeta mineiro Paulo Mendes Campos. É uma crônica do livro "Os Bares Morrem Numa Quarta-Feira" (Ed. Ática, 1980, 176 Pág.). O título é simplesmente "Brasília". Reproduzo os quatro parágrafos finais.

"Brasília comove. A mim comove. Sei que uma casa e uma praça são belas quando me comovem. Mas não conheci pelo mundo qualquer outra cidade que me comovesse em sua integridade, só pela compressão estética de suas linhas, independente de sua história ou de minhas motivações subjetivas.

Essa comoção me bastaria, se eu também não visse ali, envolvendo as massas arquitetônicas e os vazios esculturais, uma ordem mais concêntrica, uma idéia que se multiplica e oferece espaços vitais mais afáveis, uma sugestão para relações mais justas e leais entre os habitantes de cidade, uma concentração mais harmoniosa de possibilidades humanas.

Goethe dizia que os animais estão sempre tentando o impossível e conseguindo-o e que era esta a missão dos homens.

Brasília é um convite para que os brasileiros tentem o impossível: uma ordem limpa; a solidariedade social dentro da multiplicidade dos interesses humanos".

sábado, 14 de novembro de 2009

Memória e Esquecimento em Villas-Bôas Corrêa


Acabo de ler "Conversa com a Memória - A História de Meio Século de Jornalismo Político", do jornalista Villas-Bôas Corrêa (Ed. Objetiva, 2002, 288 pág.). O autor adverte que não é um livro de história, pois ele não é historiador; não é uma livro de especulação sociológica, posto que ele não é sociólogo. São as memórias de um jornalista com mais de meio século de ofício.

Registro de quem sempre esteve no olho do furacao, a obra narra os fatos mais significativos da história do Brasil a partir de 1945, após a queda da ditadura de Vargas. Passa pelo governo de Dutra, o retorno de Vargas voto popular, o suicídio do velho caudilho, a eleição e renúncia de Jânio Quadros, a ascenção e queda de Jango, o golpe militar, os governos dos generais, as diretas-já, a eleição e agonia de Tancredo, o governo Sarney e a vitória de Collor.

Quem é mais observador deve ter notado um hiato histórico - o governo de JK (1956-1961). Estranhamente, o veterano jornalista deixa uma lacuna em suas memórias. Discorre muito pouco sobre este período importante da história do Brasil. Como negar uma época tão singular e que marcou o país na segunda metade do século XX?

Foi durante o governo de JK que o Brasil começou, realmente, a ser desbravado. A olhar para dentro de si; é quando decide alterar o seu eixo de desenvolvimento. O país se dá conta que não se resumia ao litoral. A construção de Brasília fez com que a nossa arquitetura fosse respeitada mundialmente. O governo dos "50 anos em 5" revelou uma visão singularmente empreendedora.

Mas, vamos analisar as razões de Villas-Bôas Corrêa.

Villas-Bôas não esconde o saudosismo pela cobertura política que era feita no Rio de Janeiro. A cidade era, então, o centro do poder político e cultural do Brasil (décadas de 40 e 50 do século passado). Ele registra que foi na antiga capital da República, quando frequentava o Congresso em sessõs diárias, que se forjou o modelo de cobertura parlamentar e política que se pratica até hoje, com pequenas adaptações e evoluções.

O jornalista atribui à nova capital "a moda" da semana de dois, três dias úteis, nas sessões do Congresso Nacional. Na sua opinião, isso contribuiu para comprometer negativamente a cobertura política. "Nenhum jornal" - afirma - "transferiu para Brasília os seus quadros de repórteres especializados em acompanhar a rotina da atividade legislativa nas comissões e no plenário".

Villas-Bôas Corrêa demonstra toda a sua mágoa com Brasília quando faz a seguinte observação: "Nos tempos do Congresso no Rio a convivência com a família e a vigilância das esposas impunham a continuidade da rotina doméstica da pacata vida interiorana e da pausada cadência das capitais da maioria dos estados".

Como se vê, mesmo passados tantos anos, o jornalista não deglutiu Brasília. Ao longo do livro, ele deixa registrada inúmeras vezes a sua contrariedade com a construção da nova capital. Talvez, inconscientemente, dedica ao seu idealizador (JK) o pior de todos os sentimentos, superior, até mesmo, ao ódio: o desprezo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Mídia Segmentada


Até há pouco tempo, quando se falava em mídia segmentada muitos não acreditavam na sua viabilidade. O reinado da mídia de massa era total e absoluto. Mas essas mídias eram praticamente inacessíveis para as pequenas e,em muitos casos, até para as médias empresas. Com custos proibitivos, só restava buscar mídias alternativas: panfletos, malas-diretas e carro de som, para ficar só com alguns exemplos.

Com a crescente influência da Internet a comunicação passou por uma profunda transformação. É notório que essa nova mídia redesenhou o quadro das mídias. Ela deu novo sentido ao conceito da segmentação. Hoje, cada vez mais, o marketing deve ser orientado para um determinado perfil e para atingir um determinado gosto.O marketing de massa cede lugar ao marketing individual.

Hoje, também, é possível saber o filme, a música, o livro, o divertimento preferido do cliente. Os produtos, serviços e, consequentemente, as mensagens podem ser produzidas de acordo com esse perfil. As mídias sociais permitem que se conheça com muito mais propriedade o cliente. Com uma vantagem: a minha mensagem pode chegar até ele de uma forma muito menos invasiva.

Isso significa o fim da propaganda de massa? É claro que não. Mas é evidente que existe uma diversificação. Além do mais, a segmentação não pode ser ignorada. O custo dessa estratégia é bem inferior. Basta ser trabalhada de maneira profissional. Os resultados, com certeza, vão aparecer.

Blogs, twitter, facebook, flickler, youtube, newsletter e outras mídias digitais serão cada vez mais instrumentos para falar com públicos específicos e antenados em novidades. Quem não reconhecer isso, estará de fora do "admirável mundo novo" no qual estamos inseridos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Mídias Sociais: Uma Revolução


Não nutro entusiasmo cego pela tecnologia. Em especial, as novas. Por outro lado, seria uma enorme burrice ignorá-las. Também não me alinho às correntes que vaticinam que o surgimento de uma nova tecnologia representa, necessariamente, a morte de uma outra, já existente. A internet não veio para acabar com a TV, com os jornais impressos, com o rádio. Estas mídias, apenas, serão influenciadas e terão que se adapatar.

Nesse contexto, acredito que as mídias sociais chegaram para ficar. Conhecê-las e usá-las como ferramentas eficazes é o desafio que se impõe. Para o cidadão e para as empresas, para os órgãos públicos e para personalidades públicas (incluíndo, claro, os políticos). É fundamental entender que, por trás das mídias sociais, existem pessoas. Por isso, crescem as possibilidades de relacionamentos.

No fundo, a tecnologia é um acessório. O que interessa, prá valer, sãos as pessoas que as utiliza. Fazer o bom uso das mídias sociais pode render muito. Basta, pois, entender a abrangência e o significado dessa revolução que está se processando diante de nossos olhos. Uma coisa é certa: nada será como antes.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Diretas-Já: 25 Anos


Não posso deixar de registrar um fato histórico, transcorrido há 25 anos. Justamente no dia 25 de janeiro de 1984. O comício pelo retorno às eleições diretas para presidente da república, realizado em São Paulo, na Praça da Sé. Vivíamos em pleno Regime Militar. A escolha do Presidente da República era feita de forma indireta, através de um Colégio Eleitoral, totalmente manietado pelos militares.

O comício pelas "Diretas-Já", como o movimento ficou conhecido, detonou a maior mobilização de massas da história recente do Brasil. O pontapé dessas manifestações foi a cidade de São Paulo, para onde deslocaram-se milhares de pessoas, de diferentes localidades do Brasil. De Goiânia saíram cerca de cem ônibus, com aproximadamente três mil manifestantes. Eu estava entre eles.

Naquele 25 de janeiro de 1984 garoava em São Paulo. A multidão presente pouco se importava com as condições climáticas. Vestida de amarelo (a cor oficial da campanha), queria ouvir discursos inflamados, exigir o fim do regime militar e a volta das eleições diretas. Os oradores que mais se destacaram foram o então governador de São Paulo, Franco Montoro; o metalúrgico e líder de um partido surgido há pouco (PT), Luís Inácio Lula da Silva.

Mas dentre todos, uma figura se sobressaiu. Acabou se tornando um símbolo da luta pelo retorno à democracia no Brasil. Este personagem foi Ulysses Guimarães, que ficou conhecido pela alcunha de Sr. Diretas. A voz de Ulysses se confundia com a voz dos brasileiros que ansiavam pelo retorno à normalidade democrática.

Um dos momentos de maior emoção do comício de São Paulo foi quando a cantora Fafá de Belém entoou o Hino Nacional. Muitos não contiveram a emoção e choraram. Outra voz marcante foi a do locutor Osmar Santos (anos depois ele foi vítima de um acidente automobilístico que o deixou numa cadeira de rodas). Osmar converteu-se no locutor oficial das Diretas-Já.

Apesar de toda a mobilização popular em torno desse movimento (inclusive, em Goiânia, realizou-se um comício na Praça Cívica que reuniu milhares de manifestantes), a emenda Dante de Oliveira, que restaurava o direito do povo eleger o seu presidente foi derrotada no Congresso Nacional. Mas o movimento das Diretas-Já acabou apressando o fim do autoritarismo no Brasil. A oposição venceu os militares no Colégio Eleitoral. Tancredo Neves elegeu-se presidente. Um novo Brasil estava surgindo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Uma Semana em Sampa



Semana passada estive em São Paulo. A princípio, uma goroa se insinuou.A temperatura estava agradável, abaixo dos 20 graus. A partir do meio da semana, o clima sofreu grande mudança. Os termômetros ultrapassaram os 30 graus. Não havia dúvidas. Estávamos em pleno Verão.

Quem não está a trabalho, o que faz em São Paulo nesse calor infernal? Muitos refugiam-se nos shoppings. Outros, buscam os parques. De todos, parece que o Ibirapuera é o melhor. Um grande Oásis no meio da imensa Selva de Pedra. Ótima alternativa para quem está em plena Avenida Paulista é o Parque Trianon (Ten. Siqueira Campos).

Nesses lugares privilegiados, a céu aberto, sem ar-condicionado, é possível até ouvir os cantos dos pássaros, ler um livro na sombra das árvores. Esquece-se, por alguns instantes, que estamos numa das maiores metrópoles do mundo. Juntamente com os museus, teatros, restaurantes e bares, o que São Paulo tem de melhor são os seus acolhedores parques. Principalmente, para quem está flanando pelas manhãs ou tardes ensolaradas de Sampa.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Exposição Gilberto Freire


Prossegue até o dia 18 de maio de 2009,no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a exposição "Gilberto Freire - Intérprete do Brasil". Trata-se de uma justa homenagem a um pesquisador que dedicou a sua vida a entender a cultura, a sociedade e o homem brasileiro. Freire, com sua obra Casa Grande & Senzala, revolucionou a historiografia no Brasil. Usou os seus conhecimentos de antropologia e sociologia para interpretar os fatos de forma inovadora.

O sociólogo foi ferrenho opositor do racismo. Em 1942 foi preso no Recife, sua cidade natal, por ter denunciado nazistas. Com seus estudos, ajudou a demolir o racismo biologizante que dominava nossas universidades. Ele foi doutor pelas universidades de Paris (Sorbonne), Columbia (EUA), Coimbra (Portugal), Sussex (Inglaterra) e Münster (Alemanha). Em 1971, a Rainha Elizabeth lhe conferiu o título de Sir (Cavaleiro do Império Britânico).

As voltas que o mundo dá


Desde o final de junho estive ausente deste blog. Por vários motivos. Mas não creio que seja relevante desfiá-los. Isso pouco importa. O essencial é retomar o ponto de partida. Registrar impressões, visões e aspirações. É o que pretendo fazer.Em seis meses muita coisa aconteceu. O mundo mudou. Uma crise econômica sem precedentes varreu os mercados. O mundo continua sobressaltado. Até quando essa situação vai persistir não se sabe. Ninguém ousa prognosticar o seu fim.

Uma bolha imensa estourou. Muitas fantasias desfizeram-se. A especulação financeira atingiu limites inimagináveis. Não havia como se sustentar. O mundo virou um grande cassino. A banca quebrou.Deu no que deu. Os países desenvlvidos, em especial os EUA, cobravam dos outros, mas não fizeram o dever de casa. A conta será paga por todos nós. Descobriu-se, afinal, que a "nova ordem mundial" estava assentada em bases carcomidas.
Resta-nos tentar recompor os cacos do vitral espalhados pelo salão.

domingo, 29 de junho de 2008

Cheiro de Álcool


Estava em Caçu, no Sudoeste goiano. Era uma quinta-feira e queria retornar a Goiânia. Consultei o relógio: cinco minutos para 17 horas. Teria que percorrer, sozinho ao volante, 320 Km. A minha condução era um Palio 1.0, alugado.

Assim como fiz na ida, passaria por Rio Verde. O percurso entre as duas cidades é feito, considerando as precárias condições da rodovia, em pouco mais de uma hora. E são apenas 90 quilômetros. No trecho próximo a Aparecida do Rio Doce os buracos, numa extensão próxima a 10 Km, tomaram conta da estrada.

Avaliei a situação. Estava, realmente, disposto a dormir em casa. Não devia perder tempo. O medidor de combustível do automóvel marcava pouco menos de 1/4 de tanque. "O veículo é econômico, dá para chegar em Rio Verde e lá eu abasteço", imaginei.

Peguei a estrada. Cruzei, em sentido contrário, os cinco quilômetros de eucaliptos que margeiam a GO-206 que dá acesso a Caçu. Cheguei à BR-364. Venci os 20 Km até o trevo da GO-174 em pouco menos de 20 minutos. Iniciei a paciente travessia dos buracos. Como já sabia, o velocímetro do carro não passou dos 30 Km.

Comecei a observar o medidor de combustível. O ponteiro tinha baixado um pouco. Fazia calor. "Nem pensar em ligar o ar-condicionado do carro", disse a mim mesmo. Era necessário poupar combustível. Comecei a suar com os vidros levantados. A poeira era intensa. Demorou, mas saí do trecho mais crítico da estrada. Os buracos ficaram para trás.

Agora, sim, seria possível trafegar a 100 Km/h. No horizonte, o sol dava sinais de que iria se recolher. A viagem prosseguia tranquila. Só restavam cerca de 50 Km para chegar a Rio Verde. Olhei novamente o medidor de combustível. Havia baixado bastante. Entrou na reserva.

"Será que consigo chegar a Rio Verde com este combustível?", comecei a questionar. De um lado e de outro da rodovia só avistava grandes plantações: soja, algodão, milho, sorgo, cana, girassol, entre outras culturas. Nenhum posto de gasolina, nenhuma parada confiável.

Mas tinha que prosseguir o meu percurso. A essa altura, eu não desgrudava o olho do marcador de combustível. O ponteiro insistia em baixar. A preocupação aumentou. Logo seria noite. "Se o combustível acabar aqui, no meio do nada, a quem vou recorrer?", era a dúvida que me assaltava. Única alternativa: esperar um carro e pedir ajuda.

É claro que existiam riscos. Sozinho a coisa complicava. Lembrei das manchetes de TV e jornais da véspera: "Quadrilha de assaltantes presa em Caçu". E mais: "Polícia Federal desbarata na região quadrilha que traficava drogas". E havia um detalhe complicador na situação: sinal de celular não pega na estrada.

Tinha que continuar rodando até onde permitisse o combustível. A rodovia deixou de ser plana. Começou um sobe e desce de morros. "Para economizar, vou aproveitar as descidas e colocar o carro em ponto-morto", raciocinei. Foi o que fiz. Mesmo assim, o ponteiro baixava. Estava muito próximo do zero.

De repente, avistei Rio Verde. Como estava no topo de uma ladeira, calculei que a cidade deveria estar a, no mínimo, 20 qulômetros. "Será que tenho combustível suficiente?", era a dúvida que não queria calar. Pensei em parar o carro e pedir ajuda.

Mas deparei-me com um novo morro pela frente. Tinha que acelerar o carro para subir. O que restava de combustível estava prestes a acabar. Mesmo assim, subi o morro. Agora tinha pela frente uma descida generosa. Cerca de quatro quilômetros. Hora de recolocar o carro em ponto-morto.

Avistei, com grande satisfação, novos indícios da cidade. Logo à frente uma placa da indústria Kowalski. Bom sinal. Rio Verde se aproximava, de fato. O contador de combustível próximo a zero. Cheguei no anel viário que dá acesso à cidade. Parei o carro. Liguei o pisca-alerta. Estava disposto a seguir à pé para procurar um posto de combustível.

Por pura coincidência, avistei a 200 metros uma placa indicando o que eu mais precisava naquele momento: combustível. Liguei o carro. Ele foi como que deslizando até o posto. O frentista que me atendeu olhou para o marcador e concluiu: "Hi, doutor, esse carro estava andando só com o cheiro do álcool".

A Jangada e o Mar


Estive em Fortaleza na semana passada. Revivi paisagens belíssimas. A cidade cresce num ritmo frenético. Nesse aspecto, é bem diferente daquela que conheci há 18 anos atrás. "O mercado imobiliário está aquecido", revelam as manchetes de jornal. E, de fato, está. A cada esquina outdoors anunciam um novo condomínio de luxo.

Mas a cidade não é só beleza. É bom que se diga, antes que me acusem de difundir uma visão panglossiana, como se vivéssemos no melhor dos mundos possíveis. Fortaleza possui grandes contrastes sociais. Muitos bolsões de pobreza e algumas pequenas ilhas de prosperidade. Situação, de resto, comum às metrópoles brasileiras.

Apesar dessa situação, a cidade encanta turistas e visitantes. A natureza é generosa. O mar verde ensaia um extenso degradê. Céu e mar tingem a paisagem com cores fortes, marcantes. A brisa que sopra, constante, deixa a temperatura mais amena.O ar que você respira é ameno, tépido ar de maresia.

Confesso que fiquei particularmente encantado com uma cena típica de cartão-postal. Do alto do quarto de hotel onde estava hospedado divisei uma pequena jangada branca. Próxima à linha do horizonte, ela singrava o mar, tendo o céu azul e o sol como testemunhas. Era por volta das 16 horas.

Impossível não guardar essa visão na memória. Daí a pouco o sol começou a se por. Fui brindado com a visão de uma imensa bola de fogo alaranjada que se recolhia diligentemente. Era como se todo o esplender da natureza estivesse congelado naquele momento, num quadro singular. O que fazer diante de tanta beleza? Apenas duas coisas: reverenciar e agradecer.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Crônica do Avião


Cheguei ao aeroporto, em Goiânia, ligeiramente atrasado. Estavam chamando para o embarque. Corri para fazer o check-in. Etiquetaram as bagagens. Passei pelo detector de metais. A fila já estava formada para entrar na aeronave. Embarquei no avião. Procurei a minha poltrona: 12-D. Coloquei as bolsas de mão na bagageiro. Ufa! Sentei para descansar. Dei-me, ainda, ao trabalho de lembrar de desligar o aparelho celular.

Os passageiros, mais atrasados que eu, também procuravam se acomodar em suas poltronas. Ou melhor, tentavam. Aconteceu um intenso troca-troca de assentos. As comissárias de bordo, solícitas, cuidavam para que tudo se ajeitasse da melhor forma possível. O objetivo era zelar para que o vôo saísse rigorosamente no horário marcado.

Mas, de repente, algo inesperado. Um telefone celular toca. Trinnnnnn!Os passageiros, já sentados e com seus cintos afivelados, prontos para decolar, se entreolham. Pareciam dizer: "Não é o meu celular que está tocando". Ao mesmo tempo, queriam encontrar o babaca que deixou o celular ligado. O toque insistente não para: Trinnnnn!

A comissária de bordo interroga: "De quem é o aparelho que está tocando?". Imediatamente respondo: "Não é o meu". Do meu lado, alguém sugere: "O toque está tão próximo, deve ser de alguém que esqueceu ligado na bolsa do bagageiro". Um senhor grisalho levanta-se. Abre o compartimento. Verifica a bolsa e conclui triunfante: "Não é o meu". Enquanto isso, o maldito aparelho: Trinnnnn!

Inicia-se a algazarra. A impaciência toma conta dos passageiros. A aeronave não pode decolar com um celular ligado. Todos correm perigo. Trinnnnn! Ele insiste em se manifestar. A impaciência aumenta.

A chefe de gabine anuncia pelo serviço de som: "Por favor,senhores passageiros: precisamos identificar o dono do celular para que o aparelho seja desligado. O avião só poderá decolar após esta providência". Olhares acusatórios são trocados, como se dissessem: "Você aí do lado não vai desligar essa geringonça?".

Trinnnn! O barulho está muito próximo. "Só se alguém deixou cair debaixo da poltrona", sugere o senhor da poltrona 11-A. Os passageiros, agoniados, se abaixam para localizar o celular. Trinnnnn! Ele volta a insistir. E nada de localizá-lo.

De repente, me dou conta: "Será que é o meu?", penso com os meus botões. Lembro, perfeitamente, de tê-lo desligado. Ainda asssim, para desencargo de consciência, apalpo o bolso. Só então descubro, constrangido, querendo sumir da poltrona, que o Trinnnnn! é do meu aparelho.

Com um toque rápido no botão vermelho do celular devolvi a paz e o silêncio ao vôo 3957 com destino a São Paulo. Assim, cheio de vergonha, descobri o mistério: o Trinnnn era o despertador, que é ativado mesmo com o aparelho desligado. Vivendo e aprendendo.

Em tempo: esta crônica foi escrita hoje, entre 7h05 e 7h35, dentro do avião, no trajeto entre Goiânia e São Paulo.

sábado, 24 de maio de 2008

Bate-Bola com o Mar


O céu era azul. O sol reinava soberano. A brisa marinha soprava o seu hálito fresco. Os banhistas seguiam a rotina de verão: uns caminhavam sem pressa pela praia; outros deixavam-se quedar em cadeiras voltadas para o mar. Vendedores ambulantes ofereciam queijo, óculos e roupas de banho.

Alheio a todos, um menino se divertia com uma bola. Devia ter cerca de 12 anos. Pele morena curtida de sol. Uma ginga de corpo muito peculiar. No princípio, fazia embaixadas. Depois, descobriu um parceiro de jogo: o mar.

Explico: o garoto chutava a bola em direção as ondas; estas, com a sua força, conduzia a bola de volta à praia e aos pés do garoto. A cena, aparentemente banal, se repetiu diversas vezes.

O bate-bola aconteceu em Fortaleza, na praia do Futuro, há cerca de seis anos. O menino virou homem. Fico a imaginar: será que ainda joga bola com o mar?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Péres: Uma Referência Ética


Ele era baixinho e raquítico, porém, temido por muitos, especialmente pelos corruptos. Na tribuna, a sua voz era poderosa. Agigantava-se ao defender a democracia e a liberdade. Seu nome: Jefferson Péres. Um dos políticos mais brilhantes no Congresso Nacional. Hoje, pela manhã, sua voz se calou.

Na tribuna, expressava-se de maneira pausada e firme. Era dono de uma oratória brilhante. Sem concessões. Sem demagogia. Guardada as diferenças históricas, lembrava Teotônio Vilela, o menestrel das Alagoas.

O senador amazonense foi um bravo. Muitos o classificavam como uma referência ética na política brasileira. E de fato foi. Parlamentar aguerrido, Péres notabilizou-se pela coragem e pela coerência. Quando subia na tribuna (não fazia muitos discursos), sabia-se que o seu pronunciamento teria grande repercussão.


No lodaçal em que se encontra a política brasileira, era um dos poucos que se mantinha intacto. Não se deixou contaminar, nem se cegar pelo brilho do poder. A coerência, a lucidez, a coragem, a sabedoria, a rebeldia sensata e madura de Jefferson Péres farão falta ao Brasil.

Parabéns senador. Que a sua luta e o seu exemplo não sejam em vão. Descanse em paz.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Neruda em Goiânia



Na década de 50, Goiânia ainda dava os seus primeiros passos. Ela havia surgido no meio do nada. Começou a ser construída duas décadas antes. Pode-se dizer que foi fruto da Revolução de 30. Pedro Ludovico, que representava esse novo poder no Estado, era ferrenho opositor das antigas oligarquias dominantes. Mudou o centro do poder da Cidade de Goiás (antiga Vila Boa). Investiu numa cidade planejada. Ousou.

Havia necessidade de romper com o velho, com o antigo, com o decadente. Inaugurada oficialmente em 1942, durante o Batismo Cultural, Goiânia tinha que se firmar politicamente, socialmente e culturalmente. Nos seus primórdios havia muitas carências. Uma curiosidade: por um tempo, a energia elétrica que abastecia a cidade era de um motor de submarino, adquirido pelo Estado logo após o fim da 2a. Guerra Mundial.

Culturalmente, o grande marco da década de 50, indiscutivelmente, foi o Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954. Para cá afluíram intelectuais de toda a América Latina e do Caribe. Entre todos, o nome mais famoso foi o de Pablo Neruda, um dos maiores poetas do século XX e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1971.

O que poucos sabem é que Goiânia foi cenário de um dos poemas de Neruda. Ele se chama "Oda Al Pájaro Sofré". Neruda, com o seu lirismo aguçado, trata no poema de um pássaro que levou para o Chile, mas que teve um fim trágico: morreu (provavelmente) de frio. O poema foi incluído no seu livro "Odas Elementales", publicado em 1954.

Eis o trecho do poema, no original, em espanhol:

Te enterré en el jardín:
una fosa
minúscula
como una mano abierta,
tierra
austral,
tierra fría
fue cubriendo
tu plumaje,
los rayos amarillos,
los relámpagos negros
de tu cuerpo apagado.
Del Matto Grosso,
de la fértil Goiania,
te enviaron
encerrado.
No podías.
Te fuiste.
En la jaula
con las pequeñas
patas tiesas,
como agarradas
a una rama invisible,
muerto,
un pobre arado
de plumas
extinguidas,
lejos
de los fuegos natales,
de la madre
espesura,
en tierra fría,
lejos.
(...)

Soneto da Fidelidade


Aqui, como se pode constatar, uma coisa puxa outra. Ao falar do compositor Vinícius, não se pode esquecer do poeta Vinícius. E ao se falar do poeta Vinícius não dá para esquecer alguns de seus poemas que se incorporaram ao nosso imaginário coletivo. É o caso do Soneto da Fidelidade, que transcrevo a seguir:

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Se ler estes versos é um deleite, imagine vê-lo declamado pelo próprio poeta. É o que veremos a seguir. Postei o vídeo do Vinícius. Que tal conferir?

Garota de Ipanema: Eterna

Chega de Saudade, O Barquinho, Garota de Ipanema se tornaram grandes clássicos da Bossa Nova. Das três, Garota de Ipanema consagrou-se como uma das canções mais executadas em todo o mundo, ao lado de Yesterday, dos Beatles. Que tal conferir Garota de Ipanema executada por uma dupla espetacular: Tom Jobim e Vinícius de Moraes? Imperdível.

Bossa Nova: 50 Anos

Ritmo genuinamente brasileiro, a Bossa Nova está completando 50 anos. E tem muito o que comemorar. Ela é reconhecida mundialmente. Os seus criadores figuram, com muita justiça, entre os grandes gênios da música popular do século XX. No vídeo abaixo confira uma performance espetacular do quarteto: Tom Jobim, Vinícuius de Moraes, Toquinho e Miúcha.