domingo, 29 de junho de 2008

Cheiro de Álcool


Estava em Caçu, no Sudoeste goiano. Era uma quinta-feira e queria retornar a Goiânia. Consultei o relógio: cinco minutos para 17 horas. Teria que percorrer, sozinho ao volante, 320 Km. A minha condução era um Palio 1.0, alugado.

Assim como fiz na ida, passaria por Rio Verde. O percurso entre as duas cidades é feito, considerando as precárias condições da rodovia, em pouco mais de uma hora. E são apenas 90 quilômetros. No trecho próximo a Aparecida do Rio Doce os buracos, numa extensão próxima a 10 Km, tomaram conta da estrada.

Avaliei a situação. Estava, realmente, disposto a dormir em casa. Não devia perder tempo. O medidor de combustível do automóvel marcava pouco menos de 1/4 de tanque. "O veículo é econômico, dá para chegar em Rio Verde e lá eu abasteço", imaginei.

Peguei a estrada. Cruzei, em sentido contrário, os cinco quilômetros de eucaliptos que margeiam a GO-206 que dá acesso a Caçu. Cheguei à BR-364. Venci os 20 Km até o trevo da GO-174 em pouco menos de 20 minutos. Iniciei a paciente travessia dos buracos. Como já sabia, o velocímetro do carro não passou dos 30 Km.

Comecei a observar o medidor de combustível. O ponteiro tinha baixado um pouco. Fazia calor. "Nem pensar em ligar o ar-condicionado do carro", disse a mim mesmo. Era necessário poupar combustível. Comecei a suar com os vidros levantados. A poeira era intensa. Demorou, mas saí do trecho mais crítico da estrada. Os buracos ficaram para trás.

Agora, sim, seria possível trafegar a 100 Km/h. No horizonte, o sol dava sinais de que iria se recolher. A viagem prosseguia tranquila. Só restavam cerca de 50 Km para chegar a Rio Verde. Olhei novamente o medidor de combustível. Havia baixado bastante. Entrou na reserva.

"Será que consigo chegar a Rio Verde com este combustível?", comecei a questionar. De um lado e de outro da rodovia só avistava grandes plantações: soja, algodão, milho, sorgo, cana, girassol, entre outras culturas. Nenhum posto de gasolina, nenhuma parada confiável.

Mas tinha que prosseguir o meu percurso. A essa altura, eu não desgrudava o olho do marcador de combustível. O ponteiro insistia em baixar. A preocupação aumentou. Logo seria noite. "Se o combustível acabar aqui, no meio do nada, a quem vou recorrer?", era a dúvida que me assaltava. Única alternativa: esperar um carro e pedir ajuda.

É claro que existiam riscos. Sozinho a coisa complicava. Lembrei das manchetes de TV e jornais da véspera: "Quadrilha de assaltantes presa em Caçu". E mais: "Polícia Federal desbarata na região quadrilha que traficava drogas". E havia um detalhe complicador na situação: sinal de celular não pega na estrada.

Tinha que continuar rodando até onde permitisse o combustível. A rodovia deixou de ser plana. Começou um sobe e desce de morros. "Para economizar, vou aproveitar as descidas e colocar o carro em ponto-morto", raciocinei. Foi o que fiz. Mesmo assim, o ponteiro baixava. Estava muito próximo do zero.

De repente, avistei Rio Verde. Como estava no topo de uma ladeira, calculei que a cidade deveria estar a, no mínimo, 20 qulômetros. "Será que tenho combustível suficiente?", era a dúvida que não queria calar. Pensei em parar o carro e pedir ajuda.

Mas deparei-me com um novo morro pela frente. Tinha que acelerar o carro para subir. O que restava de combustível estava prestes a acabar. Mesmo assim, subi o morro. Agora tinha pela frente uma descida generosa. Cerca de quatro quilômetros. Hora de recolocar o carro em ponto-morto.

Avistei, com grande satisfação, novos indícios da cidade. Logo à frente uma placa da indústria Kowalski. Bom sinal. Rio Verde se aproximava, de fato. O contador de combustível próximo a zero. Cheguei no anel viário que dá acesso à cidade. Parei o carro. Liguei o pisca-alerta. Estava disposto a seguir à pé para procurar um posto de combustível.

Por pura coincidência, avistei a 200 metros uma placa indicando o que eu mais precisava naquele momento: combustível. Liguei o carro. Ele foi como que deslizando até o posto. O frentista que me atendeu olhou para o marcador e concluiu: "Hi, doutor, esse carro estava andando só com o cheiro do álcool".

A Jangada e o Mar


Estive em Fortaleza na semana passada. Revivi paisagens belíssimas. A cidade cresce num ritmo frenético. Nesse aspecto, é bem diferente daquela que conheci há 18 anos atrás. "O mercado imobiliário está aquecido", revelam as manchetes de jornal. E, de fato, está. A cada esquina outdoors anunciam um novo condomínio de luxo.

Mas a cidade não é só beleza. É bom que se diga, antes que me acusem de difundir uma visão panglossiana, como se vivéssemos no melhor dos mundos possíveis. Fortaleza possui grandes contrastes sociais. Muitos bolsões de pobreza e algumas pequenas ilhas de prosperidade. Situação, de resto, comum às metrópoles brasileiras.

Apesar dessa situação, a cidade encanta turistas e visitantes. A natureza é generosa. O mar verde ensaia um extenso degradê. Céu e mar tingem a paisagem com cores fortes, marcantes. A brisa que sopra, constante, deixa a temperatura mais amena.O ar que você respira é ameno, tépido ar de maresia.

Confesso que fiquei particularmente encantado com uma cena típica de cartão-postal. Do alto do quarto de hotel onde estava hospedado divisei uma pequena jangada branca. Próxima à linha do horizonte, ela singrava o mar, tendo o céu azul e o sol como testemunhas. Era por volta das 16 horas.

Impossível não guardar essa visão na memória. Daí a pouco o sol começou a se por. Fui brindado com a visão de uma imensa bola de fogo alaranjada que se recolhia diligentemente. Era como se todo o esplender da natureza estivesse congelado naquele momento, num quadro singular. O que fazer diante de tanta beleza? Apenas duas coisas: reverenciar e agradecer.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Crônica do Avião


Cheguei ao aeroporto, em Goiânia, ligeiramente atrasado. Estavam chamando para o embarque. Corri para fazer o check-in. Etiquetaram as bagagens. Passei pelo detector de metais. A fila já estava formada para entrar na aeronave. Embarquei no avião. Procurei a minha poltrona: 12-D. Coloquei as bolsas de mão na bagageiro. Ufa! Sentei para descansar. Dei-me, ainda, ao trabalho de lembrar de desligar o aparelho celular.

Os passageiros, mais atrasados que eu, também procuravam se acomodar em suas poltronas. Ou melhor, tentavam. Aconteceu um intenso troca-troca de assentos. As comissárias de bordo, solícitas, cuidavam para que tudo se ajeitasse da melhor forma possível. O objetivo era zelar para que o vôo saísse rigorosamente no horário marcado.

Mas, de repente, algo inesperado. Um telefone celular toca. Trinnnnnn!Os passageiros, já sentados e com seus cintos afivelados, prontos para decolar, se entreolham. Pareciam dizer: "Não é o meu celular que está tocando". Ao mesmo tempo, queriam encontrar o babaca que deixou o celular ligado. O toque insistente não para: Trinnnnn!

A comissária de bordo interroga: "De quem é o aparelho que está tocando?". Imediatamente respondo: "Não é o meu". Do meu lado, alguém sugere: "O toque está tão próximo, deve ser de alguém que esqueceu ligado na bolsa do bagageiro". Um senhor grisalho levanta-se. Abre o compartimento. Verifica a bolsa e conclui triunfante: "Não é o meu". Enquanto isso, o maldito aparelho: Trinnnnn!

Inicia-se a algazarra. A impaciência toma conta dos passageiros. A aeronave não pode decolar com um celular ligado. Todos correm perigo. Trinnnnn! Ele insiste em se manifestar. A impaciência aumenta.

A chefe de gabine anuncia pelo serviço de som: "Por favor,senhores passageiros: precisamos identificar o dono do celular para que o aparelho seja desligado. O avião só poderá decolar após esta providência". Olhares acusatórios são trocados, como se dissessem: "Você aí do lado não vai desligar essa geringonça?".

Trinnnn! O barulho está muito próximo. "Só se alguém deixou cair debaixo da poltrona", sugere o senhor da poltrona 11-A. Os passageiros, agoniados, se abaixam para localizar o celular. Trinnnnn! Ele volta a insistir. E nada de localizá-lo.

De repente, me dou conta: "Será que é o meu?", penso com os meus botões. Lembro, perfeitamente, de tê-lo desligado. Ainda asssim, para desencargo de consciência, apalpo o bolso. Só então descubro, constrangido, querendo sumir da poltrona, que o Trinnnnn! é do meu aparelho.

Com um toque rápido no botão vermelho do celular devolvi a paz e o silêncio ao vôo 3957 com destino a São Paulo. Assim, cheio de vergonha, descobri o mistério: o Trinnnn era o despertador, que é ativado mesmo com o aparelho desligado. Vivendo e aprendendo.

Em tempo: esta crônica foi escrita hoje, entre 7h05 e 7h35, dentro do avião, no trajeto entre Goiânia e São Paulo.

sábado, 24 de maio de 2008

Bate-Bola com o Mar


O céu era azul. O sol reinava soberano. A brisa marinha soprava o seu hálito fresco. Os banhistas seguiam a rotina de verão: uns caminhavam sem pressa pela praia; outros deixavam-se quedar em cadeiras voltadas para o mar. Vendedores ambulantes ofereciam queijo, óculos e roupas de banho.

Alheio a todos, um menino se divertia com uma bola. Devia ter cerca de 12 anos. Pele morena curtida de sol. Uma ginga de corpo muito peculiar. No princípio, fazia embaixadas. Depois, descobriu um parceiro de jogo: o mar.

Explico: o garoto chutava a bola em direção as ondas; estas, com a sua força, conduzia a bola de volta à praia e aos pés do garoto. A cena, aparentemente banal, se repetiu diversas vezes.

O bate-bola aconteceu em Fortaleza, na praia do Futuro, há cerca de seis anos. O menino virou homem. Fico a imaginar: será que ainda joga bola com o mar?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Péres: Uma Referência Ética


Ele era baixinho e raquítico, porém, temido por muitos, especialmente pelos corruptos. Na tribuna, a sua voz era poderosa. Agigantava-se ao defender a democracia e a liberdade. Seu nome: Jefferson Péres. Um dos políticos mais brilhantes no Congresso Nacional. Hoje, pela manhã, sua voz se calou.

Na tribuna, expressava-se de maneira pausada e firme. Era dono de uma oratória brilhante. Sem concessões. Sem demagogia. Guardada as diferenças históricas, lembrava Teotônio Vilela, o menestrel das Alagoas.

O senador amazonense foi um bravo. Muitos o classificavam como uma referência ética na política brasileira. E de fato foi. Parlamentar aguerrido, Péres notabilizou-se pela coragem e pela coerência. Quando subia na tribuna (não fazia muitos discursos), sabia-se que o seu pronunciamento teria grande repercussão.


No lodaçal em que se encontra a política brasileira, era um dos poucos que se mantinha intacto. Não se deixou contaminar, nem se cegar pelo brilho do poder. A coerência, a lucidez, a coragem, a sabedoria, a rebeldia sensata e madura de Jefferson Péres farão falta ao Brasil.

Parabéns senador. Que a sua luta e o seu exemplo não sejam em vão. Descanse em paz.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Neruda em Goiânia



Na década de 50, Goiânia ainda dava os seus primeiros passos. Ela havia surgido no meio do nada. Começou a ser construída duas décadas antes. Pode-se dizer que foi fruto da Revolução de 30. Pedro Ludovico, que representava esse novo poder no Estado, era ferrenho opositor das antigas oligarquias dominantes. Mudou o centro do poder da Cidade de Goiás (antiga Vila Boa). Investiu numa cidade planejada. Ousou.

Havia necessidade de romper com o velho, com o antigo, com o decadente. Inaugurada oficialmente em 1942, durante o Batismo Cultural, Goiânia tinha que se firmar politicamente, socialmente e culturalmente. Nos seus primórdios havia muitas carências. Uma curiosidade: por um tempo, a energia elétrica que abastecia a cidade era de um motor de submarino, adquirido pelo Estado logo após o fim da 2a. Guerra Mundial.

Culturalmente, o grande marco da década de 50, indiscutivelmente, foi o Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954. Para cá afluíram intelectuais de toda a América Latina e do Caribe. Entre todos, o nome mais famoso foi o de Pablo Neruda, um dos maiores poetas do século XX e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1971.

O que poucos sabem é que Goiânia foi cenário de um dos poemas de Neruda. Ele se chama "Oda Al Pájaro Sofré". Neruda, com o seu lirismo aguçado, trata no poema de um pássaro que levou para o Chile, mas que teve um fim trágico: morreu (provavelmente) de frio. O poema foi incluído no seu livro "Odas Elementales", publicado em 1954.

Eis o trecho do poema, no original, em espanhol:

Te enterré en el jardín:
una fosa
minúscula
como una mano abierta,
tierra
austral,
tierra fría
fue cubriendo
tu plumaje,
los rayos amarillos,
los relámpagos negros
de tu cuerpo apagado.
Del Matto Grosso,
de la fértil Goiania,
te enviaron
encerrado.
No podías.
Te fuiste.
En la jaula
con las pequeñas
patas tiesas,
como agarradas
a una rama invisible,
muerto,
un pobre arado
de plumas
extinguidas,
lejos
de los fuegos natales,
de la madre
espesura,
en tierra fría,
lejos.
(...)

Soneto da Fidelidade


Aqui, como se pode constatar, uma coisa puxa outra. Ao falar do compositor Vinícius, não se pode esquecer do poeta Vinícius. E ao se falar do poeta Vinícius não dá para esquecer alguns de seus poemas que se incorporaram ao nosso imaginário coletivo. É o caso do Soneto da Fidelidade, que transcrevo a seguir:

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor ( que tive ) :
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Se ler estes versos é um deleite, imagine vê-lo declamado pelo próprio poeta. É o que veremos a seguir. Postei o vídeo do Vinícius. Que tal conferir?

Garota de Ipanema: Eterna

Chega de Saudade, O Barquinho, Garota de Ipanema se tornaram grandes clássicos da Bossa Nova. Das três, Garota de Ipanema consagrou-se como uma das canções mais executadas em todo o mundo, ao lado de Yesterday, dos Beatles. Que tal conferir Garota de Ipanema executada por uma dupla espetacular: Tom Jobim e Vinícius de Moraes? Imperdível.

Bossa Nova: 50 Anos

Ritmo genuinamente brasileiro, a Bossa Nova está completando 50 anos. E tem muito o que comemorar. Ela é reconhecida mundialmente. Os seus criadores figuram, com muita justiça, entre os grandes gênios da música popular do século XX. No vídeo abaixo confira uma performance espetacular do quarteto: Tom Jobim, Vinícuius de Moraes, Toquinho e Miúcha.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mídia Construtiva Rompe Fronteiras

A mídia espetáculo, que transforma a notícia em show, é um fato. Ela está presente no nosso cotidiano. Basta ligar a TV, folhear jornais e revistas, sintonizar o rádio e acessar a Internet. Explora-se a exaustão um assunto com o propósito eminentemente comercial. A boa notícia: existe uma reação a tudo isso. Grupos organizados em todo o mundo procuram disseminar um outro tipo de mídia:a mídia construtiva.

A princípio, o movimento pode parecer uma ação de idealistas. Na verdade é. Mas com uma diferença: são pessoas que sonham, mas tem os pés bem fincados no chão. Ou seja, não guerreiam contra moinhos de vento. Possuem objetivos claros e estratégias bem delineadas. De pouco adianta apenas criticar a mídia pelo baixo nível de sua programação. É necessário oferecer alternativas.

O Pangea Day, que será realizado no próximo dia 10 de maio é uma delas. Neste dia serão exibidos 24 curtas-metragens que foram selecionados entre mais de 2.500 produções. São mais de 100 países envolvidos. Os filmes foram feitos tendo em vista inspirar, transformar e transmitir empatia por meio do cinema.

O objetivo do projeto, segundo os organizadores, é unir o Planeta em que as pessoas estão divididas por fronteiras, conflitos e por diferenças ideológicas e religiosas. Querem mais: mostrar o que as pessoas tem em comum. Ou seja, os seus anseios, sonhos, carências e emoções.

Clique abaixo e confira o vídeo de divulgação do Pangea Day. Vale a pena conferir.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Os Trajes da Verdade


"Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem"

A frase é do escritor austríaco Robert Musil, retirada do seu livro O Homem sem Qualidades, considerada uma obra-prima em razão de sua apurada técnica literária. Trata-se de um questionamento sobre a postura do indivíduo alienado diante da sociedade de massas. Mas, não resta dúvida: o autor, aparentemente, apresenta uma visão amarga da vida.

Mas as aparências enganam. O livro também é recheado de humor e sátira, como observou num ensaio sobre Musil, o crítico Marcelo Backes. Ele teceu o seguinte comentário sobre a obra:

"...O homem sem qualidades é uma bola de neve de ações paralelas, que rola pela montanha do século abaixo, abarcando tempo e espaço, para ao fim engendrar um romance inteiriço, ainda que multiabrangente, pluritemático e panorâmico.Ulrich – o homem sem qualidades – faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante. A primeira delas é na condição de oficial, a segunda no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e a terceira como matemático, exatamente as três profissões dominantes – e mais características – do século XX".

Backes acrescenta a seguinte observação: "Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabaram desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. O relato acerca da busca “desencantada” de Ulrich lembra a velha busca – ainda sagrada – do Santo Graal".

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Uma lenda de 68: Dany le Rouge



Maio de 68 começou em março. Explico. Dois meses antes da guerrilha urbana de Paris iniciar, aconteceu um conflito na Universidade de Nanterre. O motivo era prosaico: a Reitoria baixou uma norma proibindo os rapazes de visitar as moças em seus alojamentos. Por isso, o meu amigo Euler Belém, jornalista, brinca: 68 reiventou o 69.

Pois bem, um estudante judeu-alemão liderou um grupo de cem colegas contra essa decisão. Eles ocuparam a Reitoria. Assustado, o reitor tomou a decisão de chamar a polícia para desalojar os jovens rebeldes. O rastilho de pólvora estava aceso. Os estudantes de Nanterre foram para a Sorbonne (Universidade de Paris) para conquistar a solidariedade de seus pares.

O estudante que liderava a manifestação tinha os cabelos vermelhos. O seu nome: Daniel Conh-Bendit. Daí o apelido: Dany le Rouge (Daniel, o Vermelho). A sua fama alastrou-se. A liderança consolidou-se. Para alguns, ele era um Robespierre de Centro Acadêmico.

Dany era bolsista do governo alemão, filho de pais judeus que emigraram para a França fugindo do Nazismo. Em Nanterre, foi aluno de um professor brasileiro, exilado em Paris, que anos depois seria Presidente da República: Fernando Henrique Cardoso. Hoje, Dani é deputado do Parlamento Europeu pelo Partido Verde. Portanto, não é mais vermelho.

1968: O Poder Jovem nas Ruas


Mês que vem, comemora-se os 40 anos do Maio de 1968. Mas, há motivos para comemoração? Este é o questionamento que você pode fazer de cara. Será que não se está apenas incensando aquele bando de filhinhos-de-papai que saíram às ruas de Paris queimando carros, arrancando paralelepípedos, invadindo universidades e jogando pedras em policiais?

É claro que os episódios daquele ano podem ser analisados sob outra óptica completamente distinta. Foi nesse período que os ideais de liberdade e modernidade se fizeram sentir com mais intensidade, em especial, entre os jovens, filhos do pós-guerra. O chamado Poder Jovem insurgiu-se contra a autoridade. Que podia ser representada pelo pai, professor, chefe, burocrata, presidente ou rei.

Naquele ano mítico, tudo parecia possível. O homem estava próximo da lua. Os meios de comunicação, em especial a TV, interligavam o mundo via satélite. Pela primeira vez as famílias de classe média acompanhavam os horrores da guerra de sua sala de estar. A barbárie da guerra do Vietnã era mostrada com toda a sua crueza. O mundo vivia em plena Aldeia Global.

Enquanto isso, a revolução embalava os ideais juvenis. Daí o slogan famoso dos estudantes de Paris: "Seja realista, exija o impossível". Ou outro, que estava estampado nas pichações das universidades: " É proibido proibir". Entrincheirados em suas barricadas, também exigiam "A imaginação no poder". De Gaulle, o presidente francês, foi envolvido por um mutismo sepulcral.

A rebelião da juventude em 1968 era planetária. Além da França, também sacudiu a Alemanha, a Inglaterra, a Itália, e até países da chamada "cortina de ferro", como a Iuguslávia, que protagonizou a Primavera de Praga. Na América do Sul, os ecos foram ouvidos no Brasil e na Argentina, bem como na América do Norte - México e Estados Unidos.

Nos EUA, o movimento ganhou as ruas, sobretudo em razão da grande insatisfação da opinião pública norte-americana com os rumos da Guerra do Vietnã. Os jovens rebelaram-se contra o alistamento militar. Recusavam-se a ser bucha de canhão numa guerra sem sentido. Somava-se a isso, a luta pelos direitos civis, contra o racismo e pelos direitos das mulheres.

Quatro décadas depois, o que representou 1968? A revolução sonhada, é certo, não se concretizou. De toda sorte, um marco profundo se fez sentir nos costumes e na cultura. O mundo conservador, careta, reacionário, teve que dar passagem a idéias bem mais arejadas. Para o bem ou para o mal, independente da idade que se tenha hoje, somos herdeiros dos sonhos que embalaram aqueles tempos.

O vídeo abaixo dá uma idéia da rebelião e de como foi o conflito entre os estudantes e os policiais. Paris, a cidade dos amantes, tornou-se, literalmente, uma praça de guerra. Confira.

sábado, 12 de abril de 2008

Norah Jones: Voz de Veludo

Ela é o oposto da sua colega inglesa Amy Winehouse. Bem comportada, bem vestida, bem falada, enfim, boa moça. O seu jeito é meigo. Os seus gestos são comedidos. A voz, bem a voz, está a altura das grandes divas do jazz. Voz de veludo. Ela é Norah Jones. Vale a pena vê-la e ouvi-la.Clique.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Pérolas de Joel Silveira


Hoje, 7 de abril, comemora-se o Dia do Jornalista. Para homenagear a data, nada melhor do que falar de alguém que encarnou tão bem o jornalismo no Brasil. Trata-se de Joel Silveira, que sobreviveu a duas ditaduras: a de Vargas e a dos Militares.

Joel Silveira foi correspondente na Segunda Guerra Mundial, na Itália. Publicou mais de 40 livros. Em razão do seu estilo jornalístico, ganhou do dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, o apelido de "víbora". Joel faleceu no dia 15 de agosto de 2007, aos 88 anos, no Rio de Janeiro.

São clássicos do jornalismo brasileiro duas reportagens de sua autoria sobre a sociedade paulistana: "Eram Assim os Grã-Finos de São Paulo" e "A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista". Para os amantes do bom texto que quiserem saborear o estilo de Joel vai uma dica de leitura: Guerrilha Noturna (Editora Record, 1994).

Foi desta obra que retirei os cinco aforismos abaixo. Deliciem-se.

Aforismo 27

Levei anos e anos para aprender a dizer não, mas aprendi. Agora o não me sai com a maior facilidade, sem qualquer inibição ou constrangimento.
Fulano, um espertalhão que conheço desde o começo dos tempos, e a quem já concedi, complacentemente, milhares de sins, me telefona:
- Você poderia...
E antes que ele continue, brado:
- NÃO!

Aforismo 67

"Há políticos que ignoram a realidade. Em compensação, a realidade também os ignora." - É de Karl Marx, que muita gente apressada imagina ter enterrado de vez.


Aforismo 132

Informa, em tom solene, o nobre senador: "Na Democracia, todos tem direito a discutir as suas idéias".
Que os organismos internacionais, a começar pela ONU e pela Corte de Haia, e mais os governos do mundo inteiro, sejam cientificados com a maior urgência da espantosa revelação. Confesso que a mim ela ocasionou febre de quarenta graus, tosse convulsiva e batidas aceleradas no coração.

Aforismo 179

A profissão de jornalista tem uma desvantagem capital, entre outras menores: obriga o jornalista a conhecer toda espécie de pessoa, gente demais. E conhecer gente demais implica decepção demais, desencanto demais - e, até, o que é ainda mais incômodo, enjôo demais.

Aforismo 206

Aquele jornalista (ou "cientista político", como prefere ser chamado) é tão autosuficiente que se alguém lhe disser que andam falando em seu nome para a sucessão presidencial, ele, em vez de rir da pilhéria, será capaz de responder, enfático e pomposo:
- São idéias dos meus amigos... De qualquer maneira, não tomarei qualquer atitude sem antes consultar as minhas bases no Olimpo.

Tempo para Refletir


"O tempo é a imagem em movimento
da eternidade imóvel".
Platão


Luiz Carlos Maciel, jornalista , roteirista, diretor de teatro, professor e escritor, é um craque do vernáculo. Saudado como guru da contracultura, Maciel foi colaborador do Pasquim e um dos fundadores da edição brasileira da Revista Rolling Stones. Em março de 2003, Maciel escreveu um artigo sobre o tempo, no caderno "Fim de Semana", da Gazeta Mercantil. O texto é ilustrativo do seu talento.

O artigo é um primor. Tanto do ponto de vista estilístico, quanto da precisão da linguaguem; erudito e filosófico. Induz à reflexão. Na epígrafe, cita Caetano Veloso: "Por seres tão inventivo/E pareceres contínuo/Tempo Tempo Tempo Tempo/ És um dos deuses mais lindos". Trata-se da letra da canção "Oração ao Tempo".

Ah, não citei o título do artigo. Chama-se "O Tempo Somós Nós". Este, sem dúvida, é um tema instigante. Sempre povoou o nosso imaginário, desde o início dos tempos, nos primórdios da civilização, quando o homem começou a refletir sobre a sua posição no universo.

Você deve estar se perguntando: por que citar este artigo agora? Por uma razão prosaica. Estava em casa, limpando uma gaveta, quando saltou em minhas mãos o caderno "Fim de Semana", da Gazeta Mercantil. Folheei. Cheguei ao artigo, que ocupa toda a contra-capa. Não resisti. Reli com prazer o texto de Maciel.

Foi então que tive a idéia de transcrever alguns trechos, que considero os mais significativos do artigo, como forma de homenagear o autor. Maciel nasceu no dia 15 de março de 1938, em Porto Alegre (RS) e mora, atualmente, na cidade do Rio de Janeiro.

"O objetivo fundamental da ciência ocidental, em relação ao tempo, foi - e ainda é - medi-lo com objetividade e precisão. O relógico mecânico, inventado no século XIII, obedecia a este propósito. As mudanças que trouxe foram importantes, ele modificou a própria organização da sociedade - e inaugurou uma nova civilização, atenta à passagem do tempo e, portanto, à produtividade e ao desempenho".

***

"A concepção comum do tempo o considera uma estrutura tríplice: passado, presente e futuro. Nenhum desses três momentos existe, a rigor. O passado não existe mais; o futuro ainda não existe; o próprio presente é mera passagem abstrata do passado para o presente, sua vigência se reduz ao instante inextenso. Mas se o tempo não existe, por que nos parece tão real, a ponto de falarmos, por exemplo, em ter e não ter tempo? Há um esforço por parte do pensamento humano para conferir realidade ao tempo".

***
"(...) O caráter fixo do passado, sua imobilidade, são tão necessários para ancorar o fluxo do tempo, mesmo sem negar o outro mundo da eternidade imóvel, que até mesmo os teólogos não hesitaram em limitar a onipotência de Deus, negando-lhe o poder de modificar o passado. Deus pode tudo, menos desfazer o que já aconteceu. Quanto ao futuro, sabe-se que virá mas não se sabe o que será e em que irá inevitavelmente se transformar. E o presente não cessa de nos escapar, a cada instante; ele perpetuamente aniquila a si próprio. O tempo é relativo e indeterminado".

domingo, 6 de abril de 2008

Gol de Placa

Não resisti ao impulso de postar este comercial. Eu o conheci no site da agência de publicidade Insight. É extremamente criativo. Mas, ao mesmo tempo, simples. Conta uma história emocionante. Um gol de placa da marca de chocolate norueguesa Stratos. Vale a pena conferir.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A Palavra Revitalizada


Littera scripta manet. Esta é uma máxima romana, proferida pelo poeta Horácio, há cerca de 2 mil anos. Significa: a palavra escrita permanece. Será que esta sentença continua atual?

Estou convicto que, em plena era digital, a palavra está a cada dia mais fortalecida. A palavra escrita assenta-se num posto privilegiado. Diferente do que alguns chegaram a cogitar, o advento das novas tecnologias reforçou a sua importância.

Este Blog, assim como milhões de outros que circulam pela realidade virtual, é uma prova do vigor da escrita, do texto. O mesmo poderíamos dizer dos e-mails. A efervescência da comunicação não pode prescindir da palavra. Ponto para os escribas.

No caso específico dos Blogs, deve-se atentar para um fenômeno curioso. Ele extingue as fronteiras que separam autor, editor e leitor. Neste aspecto, retoma-se uma tradição dos monges medievais, anterior à invenção de Gutemberg, dos tipos móveis.

Quem chamou atenção para esse aspecto foi o estudioso Paul Saffo, do Instituto para o Futuro, da Califórinia. Ele também observou que os blogueiros pesquisam, assimilam, selecionam e editam os seus textos. Tudo isso, praticamente, em tempo real.

"Nos tempos de Gutemberg" - comentou Saffo - "o prelo deu vida aos textos e os difundiu, mas com o terrível ônus de torná-los formais e imutáveis - as palavras imobilizavam-se como insetos paleolíticos aprisionados no âmbar".

Ainda, segundo Saffo, "o texto eletrônico transformou-se num novo meio de comunicação, que combina a fixidez da prensa com a capacidade de alteração do manuscrito. Aciona-se um tecla, e centenas de linhas evaporam-se numa fumaça virtual; apertando-se outra, elas reaparecem na tela num instante. Separado do precário papel, o texto pode ser tudo, menos indestrutível".

O Escritor dos Labirintos


Uma vez, comentando a obra de Jorge Luis Borges, o escritor e ensaísta peruano Mario Vargas Llosa, o definiu com as seguintes palavras:

"O estilo borgiano é um dos milagres estéticos do século que termina, um estilo que desinflou a língua espanhola da elefantíase retórica, da ênfase e da reiteração que a asfixiavam; que a depurou até quase a anorexia e a obrigou a ser luminosamente inteligente".

Sem dúvida, um claro reconhecimento a um dos maiores mestres das letras do século XX. Saudado pela crítica mundial como o escritor dos labirintos, dos tigres, das facas, Borges deixou para a posteridade uma sentença que é a sua imagem.

"Somos nossa memória, esse quimérico museu de formas em constante mudança e esse amontoado de espelhos partidos".

Ainda mais instigante é esta outra sentença retirada do seu livro Aleph:

"Ser imortal é insignificante ; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal"

Que é Comunicação?


Comunicação é um campo amplo e fértil. Trabalha-se a inteligência, a consciência, as idéias. Por isso, esta é uma área que se aperfeiçoa constantemente. Está sempre em movimento e desenvolvimento. Tanto no que se refere a técnicas, quanto a instrumentos. O objetivo que a comunicação almeja, constantemente, é sempre o mesmo: conquistar os corações e as mentes.